Dieta para a doença inflamatória intestinal

05 Janeiro, 2020
Diarreia crônica, perda de peso ou até mesmo constipação podem ser sintomas de doenças inflamatórias intestinais. O que podemos fazer para combatê-las?
 

Dentre as doenças inflamatórias intestinais, duas se diferenciam com quadros e tratamentos diferentes: a colite ulcerativa e a doença de Crohn. A alimentação e a dieta desempenham um papel muito importante no combate aos sintomas da doença inflamatória intestinal.

Importância da dieta nos casos de doença inflamatória intestinal

É essencial saber que não existe uma dieta específica para a doença inflamatória intestinal e que ela deve ser adaptada à fase da doença em que o indivíduo afetado estiver. Nesse contexto, três situações podem ser distinguidas:

Fase de remissão

Durante esta fase, a atividade inflamatória é mínima. Por esse motivo, a dieta não deve ser modificada, embora deva ser equilibrada e saudável. É conveniente evitar restrições desnecessárias, exceto para as pessoas com alergias ou intolerâncias.   

Surto agudo leve

Nesta fase, é muito importante adaptar a dieta, que deve ter como objetivo o controle os sintomas. O mais apropriado na maioria dos casos é uma dieta facilmente digerível e adstringente, evitando a gordura o máximo possível.

Surto agudo moderado ou grave

Nessa fase, há uma sintomatologia maior. Os indivíduos afetados geralmente ficam internados em um hospital e, desde que o trato digestivo assim permita, a alimentação deve ser mantida por via oral. 

Na colite ulcerativa, a funcionalidade do trato digestivo é mantida, mas em crianças com doença de Crohn, a alimentação oral pode aumentar a inflamação. Nesses casos, geralmente se recorre à alimentação enteral.

 

A nutrição enteral consiste na administração de nutrientes através de uma sonda. Ou seja, em vez de fornecer alimentos sólidos, eles são administrados em fórmulas comerciais por meio de sondas que conectam a boca ou o nariz ao sistema digestivo.

Dieta para a doença inflamatória intestinal

Quando as complicações são maiores – megacólon tóxico ou abscessos ou fístulas graves – é usada a nutrição parenteral. Esse sistema de alimentação consiste na administração de nutrientes por via intravenosa e é utilizado quando o aparelho digestivo não funciona adequadamente.

Recomendações gerais durante os surtos

A colaboração entre o paciente e o nutricionista é essencial, pois os sintomas de uma doença inflamatória intestinal podem estar associados a certos alimentos. Dessa forma, é muito importante que o paciente mantenha um registro diário de tudo o que come.

  • O planejamento da alimentação deve seguir, na medida do possível, um padrão equilibrado e saudável.
  • Fracionar a dieta geralmente é uma boa estratégia caso o trato digestivo tenha sido afetado em algum ponto. Ou seja, comer a mesma quantidade, porém dividindo-a em pequenas porções, para não aumentar a carga de trabalho do trato digestivo.
 
  • Comer devagar, mastigando bem e em um ambiente agradável e tranquilo para evitar desenvolver medo da comida.
  • Descansar após cada ingestão.
  • Separar a ingestão de líquidos das refeições e, ainda assim, ingerir pequenas quantidades. Essa estratégia também é usada contra a diarreia, para não sobrecarregar o organismo. As soluções orais – bebidas isotônicas – favorecem a absorção de água e solutos.
  • Usar temperaturas médias para os alimentos, pois temperaturas muito quentes ou muito frias podem estimular o trânsito intestinal.
  • Cozinhar de forma simples e com sal, para compensar a perda de íons por causa da diarreia. No caso dos hipertensos, essa perda contínua de água e sais provoca quedas na pressão arterial.
  • Evitar café, estimulantes e bebidas gaseificadas.

Particularidades

Lactose

Durante os surtos, a lactose deve ser removida, assim como em qualquer caso com diarreia. Isso ocorre porque, durante os surtos, é comum o desenvolvimento de intolerância à lactose devido a um déficit temporário de lactase, a enzima que decompõe a lactose.

Dieta para a doença inflamatória intestinal

Fora dos surtos, não é aconselhável remover a lactose, a menos que o paciente sofra de intolerância. Os pacientes com colite ulcerativa são os mais suscetíveis à intolerância à lactose – primária, adquirida – em geral, não apenas durante os surtos.

 

Gordura

A ingestão de gordura deve ser limitada em caso de diarreia ou dor abdominal, especialmente as de pior qualidade.

Às vezes, no entanto, pacientes com doença de Crohn recebem nutrição enteral na forma de shakes ricos em gorduras poli-insaturadas ômega-3 e eles não devem ser restringidos. Esses shakes têm um efeito anti-inflamatório e melhoram o estado de inflamação da mucosa intestinal.

Fibras

Recomenda-se limitar a ingestão de fibras, especialmente as insolúveis. As fibras solúveis podem ser incluídas para retardar o trânsito intestinal nos indivíduos com colite ulcerativa, mas nunca para os indivíduos com doença de Crohn. Nesse caso, é necessário tentar reduzir as fibras o máximo possível.

À medida que houver melhora, no entanto, é aconselhável incluir fibras gradualmente até normalizar a alimentação, começando pelas solúveis.

Controle laboratorial

Os afetados por doenças inflamatórias intestinais são suscetíveis a déficits de micronutrientes. O monitoramento adequado dos micronutrientes é essencial, pois, às vezes, esses pacientes têm uma dieta muito restritiva.

Os parâmetros laboratoriais a serem controlados são a vitamina B12, o ácido fólico, as vitaminas D, E e A e alguns minerais, tais como cálcio, magnésio e fósforo.

Alimentos funcionais

O uso de prebióticos – microrganismos vivos que favorecem a flora intestinal – é controverso para a doença de Crohn, porque não está muito claro que eles apresentam benefícios.

Por outro lado, em relação ao seu uso para a colite ulcerativa, os prebióticos podem ser benéficos para a inflamação do reservatório.

 

Quando um paciente com esta doença tem o cólon removido, geralmente é colocada uma prótese entre o intestino delgado e o que restou do reto, formando um reservatório usando uma parte do intestino delgado.

Dieta para a doença inflamatória intestinal

Ômega 3

Não existem dados suficientes para a sua suplementação sistemática para as pessoas com doença inflamatória intestinal. Alimentos ricos em ômega 3 são recomendados desde que as gorduras sejam toleradas.

Antioxidantes

A suplementação sistemática não é necessária ou recomendada, mas o planejamento alimentar pode ser orientado de modo a aumentar o consumo de antioxidantes naturais como parte dos alimentos.

Em suma, fica claro que as recomendações podem variar de acordo com as características de cada caso. Assim, se você sofre de uma doença inflamatória intestinal, siga à risca as instruções do seu médico.

 
  • Salas-Salvadó J, i Sanjaume AB et al. 2019. Nutrición y dietética clínica. Elsevier Health Sciences.